Lygia Pape – A ARTE PÚBLICA.

Lygia Pape – A ARTE PÚBLICA.

O Divisor – (Lygia Pape) o que eu queria era um trabalho que fosse coletivo, e que as pessoas pudessem repetir sem que eu estivesse presente.

“Não há nada mais sofisticado, intelectualmente falando, do que a cultura dita não-erudita. A proximidade com as manifestações populares diz respeito à percepção de mundo que eu tenho como artista. Com relação ao meu trabalho pessoal, posso me emocionar com as invenções populares, achá-las interessantes e criativas. Tudo o que observo pode me alimentar e até servir de subsídio para uma manifestação ou invenção que eu vá fazer, mas não no sentido idealista de achar que a arte é algo vago, simplesmente belo. Acho que é mais incisiva, é uma linguagem. É a minha forma de conhecimento do mundo. (…)

Muitos dos artistas do grupo [neoconcreto] fizeram trabalhos onde a participação do espectador fazia parte da expressão da obra. Esse conceito está sendo difícil de ser assimilado na Europa e nos Estados Unidos. Haja vista a Documenta de Kassel.

Eu realizei alguns trabalhos desse tipo em 1968, mas os meus têm um outro caráter. Quando fiz o Ovo, um cubo coberto com uma superfície macia onde a pessoa entra, rompe e ‘nasce’, estava interessada na possibilidade de uma obra sem autor. O Divisor, uma grande superfície de 20 x 30 m, com fendas onde as pessoas enfiam suas cabeças, também foi um trabalho bastante feliz nesse aspecto. O que eu queria fazer naquele momento era um trabalho que fosse coletivo, e que as pessoas pudessem repetir sem que eu estivesse presente. O Ovo e o Divisor são estruturas tão simples que qualquer pessoa pode repetir. Ideologicamente este tipo de proposta seria uma coisa muito generosa, uma arte pública da qual as pessoas poderiam participar. Atualmente, são chamadas de performances.

Hoje, já não tenho trabalho algum no qual a participação do público seja importante. Os dados de invenção, de criação de novas linguagens, de mistura das categorias, tudo isso foi muito produtivo como fonte de energia geradora de outros possíveis trabalhos. Apresentam questões amplas e importantes.

Acho muito perigoso classificar a produção artística em gerações. No entanto, é muito comum tentar manter o artista dentro de determinado período, quase que congelado ali. E não é assim. Você surge num determinado momento, já que cada um tem o seu prazo de surgimento no mundo, mas o processo só pode ser realmente definido quando o artista desaparecer. Porque esse processo compreende momentos diversos onde questões podem aparentemente sumir para ressurgirem mais adiante. Acho empobrecedor demais classificar o artista dentro de uma geração e condicionar a visão crítica sobre sua obra dentro daquele universo. (…)

Eu trabalho de forma circular, passo de uma obra para outra. Isso pode parecer estranho mas, para mim, é uma forma de meditação de um trabalho em relação ao outro; uma questão alimenta e ajuda a resolver a problemática da outra. Chego, às vezes, até a mudar de técnica: das artes plásticas, passo para o cinema ou escrevo. Isso tudo faz parte de um todo e funciona organicamente. (…)

Eu sou intrinsecamente anarquista. Isto não significa que seja desestruturada. Mas tenho uma vontade terrível de não respeitar as estruturas rígidas. Não suporto poder e hierarquias. Tanto é que minhas aulas são antiaulas. O processo de aprendizado é uma elaboração perene e individual, porque cada um tem um tempo próprio de crescimento. Tento passar para os alunos um conceito de liberdade. Isso fica muito marcado. Na aula de desenho, por exemplo, muitas vezes começo trabalhando com jornais. O aluno já inicia encarando uma página de jornal como um desenho, sentindo as tonalidades dos cinzas, as manchas, e tendo de interferir nas imagens fotográficas. Desse modo, vai recriando as imagens e começando a ter um outro olhar em relação às coisas, aprendendo a perder o sentido de discriminação do que é arte e do que não é”.
Lygia Pape
PAPE, Lygia. Lygia Pape. Entrevista Lúcia Carneiro, Ileana Pradilla. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998. p. 21-22, 44-46, 53 e 74-75 (Palavra do artista).

“Ao contrário do que se supõe, não é indiferente no concretismo fazer gravura, pintura ou desenho. Se o artista se propõe um problema gráfico, ele vai fazê-lo em gravura (…). Quanto às formas simples da gravura concreta, creio que na feitura de um trabalho uma pergunta sempre deve ser feita: isso é necessário? Poderia realizar por meios mais simples? Daí o despojamento”.
Lygia Pape
PAPE, Lygia. Debate sobre a gravura afirma Pape: “Os jovens devem abrir o seu próprio caminho”. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15/12/1957. Apud GRAVURA: arte brasileira do século XX. São Paulo: Itaú Cultural : Cosac & Naify, 2000.  p. 128.

https://www.escritoriodearte.com/artista/lygia-pape

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