Caravaggio – O gênio amaldiçoado!

Caravaggio – O gênio amaldiçoado!

Caravaggio – Angustiante….sombrio…macabro,..e insólito.

Todos atributos viáveis e verdadeiros. Michelangelo Merisi da Caravaggio. Conhecido pela vila onde transcorreu parte da infância. Famoso pelo manejo dos pinceis. Técnica refinada.

Sublime pelas suas obras que nos fazem, refletir, pensar, sentir e emocionar. Seja Você cristão ou não. Não importa. Diante da realidade que este gênio amaldiçoado nos apresenta, diante da redenção que provoca, diante de um realismo cru e sincero que acabou lhe custando muitas e invejosas inimizades.

Caravaggio: o maneirista que abre as portas da arte chamada posteriormente de Barroco.

A pintura nunca mais será a mesma. Desde as primeiras obras até o ápice de sua carreira ( truncada violentamente antes do 40 anos ) percebe-se que o destino em termos de arte lhe reservou um lugar muito especial. Chega a Roma, a grande Urbe, no final do Séc. XVIII. Esta cidade cosmopolita que anda em busca de talentos , não só para embelezar, mas para garantir que as imagens, desdenhadas pelos protestantes, possam resgatar fé e esperança para aqueles que não saber ler a fonte da salvação.

Dezenas de prelados, do alto escalão apostólico, disputam poder patrocinar, proteger e garantir através das obras que financiam, a  própria imagem. Patrocínio abençoado!

Neste mundo mundano e cardinalesco chega vindo da distante Lombardia um jovem. Possui poucas credenciais. Algumas pinturas sobre telas enroladas são seu passaporte. Apresenta-se como tendo sido aluno de Simone Peterzano ( este provavelmente fora aluno-dizia-se-de Tiziano Veccelio).

Nada lhe vale. Buscava fama e fortuna. Encontra frio e fome.

Arranja emprego na “bottega” do Cavalier D`Arpino (Giuseppe Cesari). Não demora muito e cai nas graças do cardeal Francesco Maria del Monte.O Cardeal del Monte, de nobre família, é além de príncipe da Igreja, um conhecido e experiente colecionador.

Algo chama a atenção do prelado ao ver numa vitrine…”Garoto com cesto de frutas”Caravaggio_-_Fanciullo_con_canestro_di_frutta

A tela nada tem de santo, místico ou simbólico. Nao representa nada que naquele momento da plenitude do Barroco, era exigido. Porém tinha uma inigualável qualidade. Técnica invejável. Logo outro trabalho seduz o olhar do Cardeal que compra sem dúvida…”Os trapaceiros”

Caravaggio_os_trapaceiros

Aqui também nada vemos de santificado ou de propagandística da fé católica….vemos uma cena simples, humana e até “pecaminosa” Dois embusteiros estão atarefados em trapacear o jovem inexperiente.

Merisi passa a residir no palácio e recebe o mecenato do Del Monte.

Será este cardeal a encontrar para Caravaggio o grande desafio que lançará o jovem artista vindo da distante Lombardia, no mais alto cume artístico romano.

O local: Igreja de São Luís dos Franceses.  O domicilio: a prestigiosa capela particular da família Contarelli. O desafiador tema: episódios da vida de São Mateus.

Caravaggio aceita e realiza uma tríade magistral.

The Calling of Saint Matthew by Caravaggio, 1599

A vocação: onde, com a luz magistralmente reforça o gesto divino que aponta e redime o pecador

The_Inspiration_of_Saint_Matthew_by_Caravaggio

a elaboração do evangelho. O atento apostolo ouve a teoria a ser escrita.

The_Martyrdom_of_Saint_Matthew-Caravaggio_(c._1599-1600)

O dramático desfecho: o martírio.

A capela se torna referencia para o bom gosto e especialmente um modelo para a arte pictórica barroca.

Elogios e encomendas aceleram a fama de Michele (como era na verdade chamado)

Uma série magnifica nasce de sua produção dentro dos parâmetros que a Igreja determina no seu ataque figurativo aos protestantes. O célebre “A dúvida de Tomé” impressiona. Talvez um dos mais profundos testemunhos de que a fé não deve permitir dúvidas.

a-incredulidade-de-sc3a3o-tomc3a9

O trabalho reforça a tese:-“Não deve haver dúvida…a razão está de um único lado…o da Igreja !”

Não fosse um trágico envolvimento até hoje não muito bem esclarecido. Foi dívida de jogo? Foi calúnia?.. ou o tempestivo temperamento de Merisi mais uma vez o coloca em encrencas. Envolvimento que gera um duelo. Uma morte. O início da trágica fuga marcada por uma sequência de obras de arte de altíssimo valor. Uma fuga que o levará para a Nápoles, na Sicília,na ilha de Malta ..sempre procurando fugir da presença dos caçadores de recompensas (foi condenado a morte nos estados pontifícios-existe recompensa de alto valor pela sua cabeça).

Consegue regressar a Nápoles onde seu trabalho é admiradíssimo….e neste momento recebe a notícia que esta prestes a ser redimido. O cardeal Scipione Borghese sobrinho do Papa Pio V está intercedendo para obter o perdão papal.

Por uma ironia são as” últimas horas” do grande mestre.

Acalentando a ideia da redenção – segundo muitos pesquisadores -elabora sua confissão mais seria e profunda…”David com a cabeça de Golias”

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O mais contundente de uma série de três obras com o mesmo tema. A última confissão, onde admite sua culpa. É certo que se autorretrata como o jovem Davi.E é certíssimo que se autorretrata na cabeça do malfadado Golias .Observem bem. O olhar distante. A boca quase gemendo um alarido:-“Sim eu sei o que fiz…sou um assassino,.. mas sei que a redenção existe!”

Esta obra prima, junto com outras nove (dizem)  está com ele, quando embarca numa tartana  (pequeno barco a vela para viagens litorâneas).Leva este tributo pictórico como sua recompensa ao Cardeal Borghese. Mais uma vez é traído pela “fortuna”. Detido por engano é encarcerado numa insalubre masmorra. Contrai febre…. Dois dias depois consegue a duras penas provar que não é o malfeitor que procuram; é uma terrível coincidência .Uma mera  e trágica semelhança. Abalado e febril sai e percebe que a tartana foi-se rumo a Roma levando sua carga. Seu tributo ao Cardeal Scipione. Segundo relatos tomado pelo desespero inicia uma insana corrida pela praia debaixo de um sol abrasador.

Desmaia. É levado  a um hospital monástico, dizem relatos, onde falece. Outros citam que seu corpo é encontrado sem vida na praia. Uma coisa é certa: o barroco perde seu criador que, naquele momento sequer tinha 40 anos.

Constata que a delegação papal,com o indulto pleno, chega ao local dois dias depois.Tarde.Tarde demais.

Bild-Ottavio_Leoni,_Caravaggio

Texto de Giovanni Bagnoli – Professor de História da arte e Parceiro da Galeria419.

 

2 comentários sobre “Caravaggio – O gênio amaldiçoado!

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